Mente silenciosa, oficina de boas ideias.

Como silenciar a mente nos ajuda a criar melhor e seus cavaleiros do zodíaco: Yoga, corrida e meditação.

Esses tempos li, neste mesmo batlocal (o Substack), sobre o hábito de grandes escritores de fazer longas caminhadas (na pesquisa desse texto encontrei este outro muito bom nesse sentido), além de meditações e pausas frequentes (que duram mais do que os 5 minutos do método Pomodoro). “Fulano escreve 3 páginas e vai andar por 4 horas”, “Beltrano fica 2h do dia sem fazer absolutamente nada”. Foi aí que pensei o quanto esse arejar da cabeça é essencial para quem escreve/cria/e precisa ser um adulto funcional no geral, afinal a vida de quem não é herdeiro exige criatividade. E o quanto (poder) fazer isso – em tempos de trabalhe-enquanto-eles-dormem – também é revolucionário. Porque, mesmo que você tenha autonomia e flexibilidade na rotina, parar é um desafio. Estamos sempre correndo, mesmo sem sair do lugar.

Assim, classifico o parar como indispensável para pensar em novas saídas. Como já dizia a expressão “parar pra pensar”, né meninas?

Um salve especial pro pessoal da “Sociedade do Cansaço”

Nessas de respirar fundo, fiz minha primeira aula de Yoga em 2013. Estava num período de grandes mudanças e tensões e essa aula foi um agradável hiato na ansiedade que sentia há tanto tempo, mas nem notava. Aquela pausa, naquele momento, trouxe tanto relaxamento e paz que nunca mais deixei o Yoga. Senti que fiz um pause no automático da vida e, aos poucos, também percebi como isso foi/é imprescindível, para seguir na carreira publicitária (que não é para fracos) e também na evolução das minhas criações.

Quase 15 anos depois, em outra aula de Yoga, meu querido professor Silvio Lopes (do “Yoga no Parque” escola de Curitiba-PR) leu esse trecho do livro “O coração do Yoga”:

“A mente é capaz de dois estados, baseados em duas tendências distintas: a distração e a atenção. No entanto, em um dado momento, apenas um estado prevalece, e esse estado influencia o comportamento, as atitudes e as formas de expressão da pessoa”

E pensei como isso é contraditório: apesar da ansiedade ser um estado de alerta, é na calmaria da meditação que alcançamos um verdadeiro estado de atenção.

Se você está focado em uma coisa só, recusa todas as outras. Isso se associa à criação quando pensamos que só é possível chegar numa boa ideia escrevendo (tirando) todas as ruins do caminho. No livro “Criação Sem Pistolão” o autor indica exatamente esse exercício: escreva todas as ideias, especialmente as ruins, só assim você dá espaço para as boas.

Porque, às vezes (sempre), parece que uma boa ideia é tipo um gato, só vem perto quando você não chamou. É na hora dela, não na sua. Doses cavalares de síndrome de impostor podem chegar antes de concluir um projeto. 

Imagens reais de uma boa ideia vendo você criar

Nesse sentido, vale destacar o melhor conselho que já recebi sobre redação publicitária (salvo engano, ouvi do Eduardo Pamplona, num curso de criação):

– Tinha um cara que fazia elefantinho na praia. Ele esculpia o elefantinho num coco. Eu perguntei como ele fazia isso e ele disse: eu pego o coco e tiro tudo que não é elefantinho.

Nessa de tirar o que é ruim, esvaziar a mente, outro exercício que estimula as boas ideias é a corrida. Sempre achei podre de chique a pessoa sair da casa dela e correr por aí. Uma percepção muito influenciada por Mel Gibson e Helen Hunt no filme “Do Que As Mulheres Gostam”. No filme (do incrível ano de 2000!), essa personagem tem o grande insight de uma campanha publicitária durante uma corrida. Cena que exemplifica muito bem o que quero dizer aqui: assim como a caminhada e o Yoga, a corrida também é destino para boas ideias.

Corta para 2025 quando a Olympikus lança a seguinte campanha “Ideias que nascem correndo”. É uma série de vídeos sobre essa relação da criatividade com a corrida que eles apresentam assim:

“A corrida vai além do movimento físico. Ela é o ponto de encontro entre corpo e mente, um espaço onde o fluxo criativo ganha vida. Quando corremos, nos conectamos com algo maior. A mente se liberta e a criatividade encontra seu ritmo.”

Belo, né? E muito real, talvez por isso tão bonito. Enquanto o Yoga e a caminhada silenciam a mente pela calma, a corrida busca o silêncio pela pressa, como pontua um dos entrevistados “a corrida é quase um não-espaço, é um lugar onde a minha cabeça tá trabalhando através do meu corpo”.

Na mesma campanha, um neurologista explica biologicamente como o movimento ajuda na criação. Segundo ele “o movimento é o grande remédio para o seu cérebro” porque ele nos ajuda a liberar neurotransmissores como a dopamina, noradrenalina, serotonina. Esses queridos ajudam na ligação de neurônio com neurônio, ou seja, na construção do nosso pensamento. Por isso, aumentam o foco e o prazer em estar naquele momento, criando o ambiente perfeito para reflexões e pensamentos.

Além disso, ele cita a liberação da BDNF (Fator Neutrotrófico Derivado do Cérebro) que ajuda na “plasticidade cerebral” definida como a capacidade do cérebro de contornar algum problema, de regenerar. Ou seja, quanto mais você se movimenta, melhor você pensa.

Ele também comenta sobre esse resultado positivo causado por exercícios físicos resumido na sigla de CASA (Confiança, Autonomia, Satisfação e Autoestima). Palavras muito interessantes quando relacionadas ao processo criativo. Já tentaram criar qualquer coisa num estado de insegurança? Impossível! Toda linha ou rabisco que você faz trava o próximo. Se você acha que está tudo ruim você não sai desse lugar. É quase um estado depressivo-criativo.

Talvez daí que venha o mantra “confie no processo”, é preciso acreditar que depois de fazer uma lista de ideias ruins, vai surgir algo interessante.

may the force be with you

Seguindo esse fluxo, quando você alcança um estado de concentração é quando mergulha no silêncio e entra em estado de flow. Esse “flow” nada mais é do que um estado meditativo ativo, você pode se concentrar no nada, mas ao mesmo tempo no todo. É nesse momento que o nosso cérebro brilha, desabrocha, transcende.

Voltando à meditação do Yoga, vale trazer outro recorte do livro “Coração do Yoga” sobre um estado intermediário que é quando:

“A mente alterna entre a possibilidade de concentração intensa e um estado em que outros objetos podem atrair sua atenção.”

“A diferença entre a situação anterior e esta é que, na primeira nossa mente oscila entre dois estados muito diferentes [atenção e desatenção], opostos, enquanto, na segunda [estado intermediário], a diferença entre os dois estados que se alternam é muito menor. Há, neste último caso, uma grande chance de retorno à direção escolhida para a indagação, sem grande perda de tempo e sem os efeitos duradouros do estado mental de distração.”

“be like water”

É preciso estar focado, mas também conseguir olhar para o lado. É basicamente exercitar o seu sentido aranha e/ou seu déficit de atenção para transformá-lo em indagação. Me parece que indagação aqui é esse estado de curiosidade, atenção e disposição. 

Para concluir, acredito que a caminhada, o Yoga e a corrida têm rotas diferentes que nos levam ao mesmo lugar: silenciar a mente para escutar novas (e nossas) respostas. Talvez escutar os nossos silêncios nos guie para onde boas ideias gritam.

Obrigada por ler tudo isso! Gostou dos gifs? Eles foram quase mais trabalhosos de encaixar do que as palabras. Até a próxima!